Caso emblemático

8 de Janeiro

Este termômetro avalia os atos de 8 de janeiro de 2023 sem assumir nenhuma das teses em disputa — tanto o suposto plano anterior quanto a resposta penal do Estado.

Premissa do projeto: a direita diz que não houve golpe; a esquerda diz que houve a tentativa e que as instituições a impediram. Este estudo não entra no mérito dessa disputa — e é exatamente aí que reside o diagnóstico: a discussão em si já é o sintoma. Um país de democracia saudável não precisa debater se houve ou não golpe; o debate, em si, já é o diagnóstico.

O benefício da dúvida para ambas as teses é extremamente grave

Se a tentativa ocorreu, a democracia esteve sob ataque por dentro. Se a tentativa foi inventada, o Estado usou o aparato penal contra seus opositores. O fato de ambas as teses serem plausíveis — de se poder dar o benefício da dúvida às duas — é, em si, extremamente grave: revela uma democracia cujo funcionamento real não permite distinguir com segurança a defesa das instituições do abuso delas.

Nenhum dos lados percebe o sintoma

O fato concreto é que nenhum dos dois lados percebe que a própria existência dessa discussão é gerada por uma democracia enfraquecida — tanto na tentativa real quanto na invenção de uma tentativa. A imputação e a tentativa são duas faces do mesmo enfraquecimento.

Tese da direita

Não houve golpe; houve invenção de uma tentativa para justificar repressão seletiva.

Tese da esquerda

Houve tentativa real de golpe e as instituições a impediram.

Ambas convergem num ponto que raramente é dito: a situação que gerou o debate só existe porque a democracia já estava fragilizada. A imputação e a tentativa são duas faces do mesmo enfraquecimento.

O que ocorreu

  • invasão das sedes dos Três Poderes
  • vandalismo e depredação de patrimônio
  • violência e desordem
  • afronta simbólica às instituições

O que não ocorreu

  • tomada efetiva do poder
  • deposição do presidente eleito
  • impedimento da posse (já havia ocorrido)
  • fechamento efetivo do Congresso ou do STF
  • decreto de ruptura colocado em vigor
  • adesão institucional das Forças Armadas
  • controle do aparelho de Estado pelos invasores

Quatro níveis que não se equivalem

O projeto diferencia graus de gravidade — opinião, preparação, execução e ruptura consumada não são equivalentes.

1

Opinião antidemocrática

Manifestar ideias contrárias à democracia. Grave, mas não equivale a ação.

2

Preparação ou discussão

Reuniões, minutas, discussões sobre medidas de exceção. Ainda não é execução — mas a mera existência já é um mau indicador democrático.

3

Início material de execução

Passos concretos para impedir a consolidação do resultado eleitoral.

4

Ruptura consumada

Tomada efetiva do poder, deposição do governo eleito, adesão institucional das Forças Armadas.

Interpretando o ocorrido: direta e indiretamente

Cabe a este estudo interpretar o ocorrido diretamente e indiretamente.

Diretamente: a lei aplicada de forma desproporcional

Foi preciso separar condutas muito distintas. É o caso da imputação de "associação criminosa armada": não existiam armas. Apropriar-se desse qualificador sem o elemento material que o define é aplicar a lei de forma desproporcional — e desproporcionalidade, em matéria penal, é ela própria uma forma de arbítrio.

Indiretamente: documentos que conjecturam intervenção

Por outro lado, existiram documentos que conjecturaram a possibilidade de uma intervenção — isso pode ser grave. Mas é essencial notar o momento: tais conjecturas se referiam a um cenário posterior à posse, ou seja, depois que o resultado eleitoral já havia se consolidado. A gravidade do documento não se confunde com a execução de uma ruptura.

Pense sempre na resultante

Mais importante do que disputar a natureza do ato é observar o que ele produziu. E a resultante é dupla:

  • Um importante líder político foi preso e censurado — impedido de se manifestar, articular e defender-se publicamente.
  • Foi criado um precedente bastante interpretativo sobre "ameaça às instituições", no qual qualquer manifestação acalorada poderia, a partir de então, ser enquadrada.

A resultante, portanto, não foi o fortalecimento da democracia: foi a ampliação do poder punitivo do Estado e a restrição da liberdade de manifestar oposição.

É necessário distinguir entre:

quem depredouquem invadiuquem permaneceu fora dos prédiosquem estava em acampamentosquem financiou transportesquem organizouquem incentivouquem apenas manifestou opiniãoquem eventualmente participou de um plano anterior

A democracia é prejudicada quando o Estado:

realiza prisões coletivas
não individualiza condutas
utiliza prisões cautelares de forma prolongada
aplica penas desproporcionais
confunde vandalismo com tomada do poder
elimina garantias processuais
concentra investigação e julgamento
trata opositores como inimigos do Estado

A lição do incêndio do Reichstag

Em 1933, o incêndio do parlamento alemão serviu de pretexto para que Hitler decretasse estado de sítio — para defender a Alemanha. A defesa da pátria foi o argumento; o resultado foi o fim da democracia. A história ensina que a "defesa das instituições" pode ser, ela própria, o instrumento da captura das instituições.

O que estamos defendendo aqui? A democracia — ou o governo eleito?

Defender a democracia é defender o direito de discordar, inclusive do governo. Defender apenas o governo eleito, sob o nome de "democracia", é inverter os termos — e abrir caminho para que toda oposição seja tratada como ameaça.

Assim, a democracia sofreu tanto pela possibilidade de planejamento de uma ruptura quanto pela possibilidade de uma resposta penal arbitrária. Não basta combater uma possível ruptura. A reação do Estado também precisa respeitar a democracia — caso contrário, a "defesa" vira o próprio risco.

Aviso metodológico: Este termômetro apresenta uma interpretação autoral da democracia brasileira. As notas não são oficiais e podem ser revisadas conforme novos fatos, documentos, decisões ou argumentos. O objetivo é estimular o debate sobre liberdade eleitoral, representação, independência dos Poderes e autonomia da sociedade.

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